O conceito de “lugar de fala” é muitas vezes mal interpretado.
Na verdade, ele nos convida a reconhecer de onde falamos, e não a silenciar outras vozes.
Convidamos para essa conversa, Letícia Rodrigues e Luanny Faustino, sócias da TREE, para refletirem sobre o que significa, na prática, ser uma pessoa e liderança aliada.
Letícia Lara Rodrigues
Acho que o principal aqui é que todas as pessoas podem ser aliadas da diversidade — podem e devem. E no tema étnico-racial, não é diferente. Muitas vezes, nós escutamos: “Ah, eu não faço parte desse grupo.” Mas a responsabilidade de fazer as mudanças, a responsabilidade de buscar a transformação, tem que ser de cada um.
Quando a gente está falando com as empresas, a gente trabalha ações para o CNPJ. Mas as pessoas têm que entender que elas também são um CPF fora da empresa e, dentro dela, têm a oportunidade de decidir como vão agir, o que vão fazer ali, quais serão as suas ações.
Falando do Mês da Consciência Negra, por exemplo, a pessoa negra não é obrigada a fazer letramento racial de ninguém. Então, a pessoa tem a responsabilidade de entender do que está falando, do que as pessoas estão falando, e de compreender como pode se posicionar.
Pessoas aliadas
Pessoas aliadas, são aquelas que se posicionam sobre os temas. São pessoas que vão se letrar, que reconhecem seus privilégios, como a Luanny comentou, e que entendem o papel de se posicionar em relação a algumas questões. Quem tem o privilégio, quem está no poder, é quem consegue promover determinadas mudanças.
Quando elas estão, por exemplo, com a caneta de decisão sobre orçamento, contratação ou estratégia, elas precisam agir com responsabilidade. É importante se posicionar sempre que possível dentro dos processos, para trazer outras pessoas para esse jogo também. Na prática, significa usar os espaços que você já ocupa, por conta dos seus privilégios, para garantir que as vozes de outras pessoas e grupos sejam ouvidas. Elas já têm voz e conteúdo — o que muitas vezes falta é espaço. E esses espaços de poder e privilégio ainda não estão ocupados por todos.
Além disso, a pessoa aliada pode tomar decisões de consumo e de contratação alinhadas a causas sociais e a grupos dos quais ela não faz parte. Pode escolher o tipo de filme, quem é o diretor, quem são os atores que vai prestigiar; o livro de qual autor vai ler — por exemplo, escolher autores negros de forma intencional. Pode comprar produtos e contratar fornecedores desses grupos.
Luanny Faustino
É importante que as pessoas entendam a diferença entre lugar de fala e representatividade. Todos nós temos um lugar de fala para tratar de algum tema.
Como a Letícia disse, uma pessoa branca tem um lugar de fala sobre o tema étnico-racial; uma pessoa sem deficiência tem um lugar de fala para tratar do anticapacitismo. O que ela não tem é representatividade.
É importante que as pessoas não confundam isso, para que as pessoas não se escondam atrás do conceito de lugar de fala. “Ah, eu não tenho lugar de fala para falar sobre pessoas com deficiência porque eu não tenho deficiência.”
Não! Eu tenho o lugar de fala de uma pessoa que não tem deficiência, que é aliada e que sabe qual é a sua responsabilidade quanto a esse tema.
Outra confusão comum que acontece é a de responsabilidade com culpa. “Eu não tenho culpa por ser um homem branco, cisgênero.” Às vezes escutamos essa frase, onde a pessoa acaba se colocando em um lugar de defesa quando a gente fala sobre diversidade, equidade e inclusão. Mas culpa é diferente de responsabilidade.
Quando você tem ciência de que existem, sim, estruturas excludentes dentro da nossa sociedade — como racismo estrutural, machismo estrutural — você tem a consciência de que tem responsabilidade para fazer isso mudar. É muito diferente esse conceito de culpa, porque a culpa, como a gente sempre fala aqui nos conteúdos da TREE, paralisa. Já a responsabilidade faz com que a gente se mova.
Consequentemente, a gente começa a refletir sobre os nossos privilégios. Todos nós, em algum âmbito, temos algum tipo de privilégio, devido aos acessos que tivemos e que outras pessoas não tiveram — o que vai construindo a nossa identidade. Quando a gente entende esses privilégios, começa a abrir espaço para pessoas que não tiveram os mesmos acessos. E aí começamos a ser aliados de todas as pessoas. Isso é uma das ferramentas que pessoas aliadas precisam ter.
Eu sempre digo que, nesse mundo de mídias sociais, ser uma pessoa aliada online é muito fácil. As pessoas se posicionam nas redes, mas é importante ter consciência de que ser aliado vai além do que as redes mostram. Se não existir internet amanhã, você vai continuar sendo uma pessoa aliada? É preciso alinhar o discurso com o agir. Às vezes a gente pensa que é um agir muito grande, que é “mudar o mundo”. Mas, às vezes, é só conversar com um amigo sobre algo que você aprendeu, trazer sua equipe para discutir um tema, corrigir uma expressão que não se utiliza mais.
E, conectando com o que falamos sobre a diferença entre lugar de fala e representatividade — que muitas pessoas têm medo —, eu sempre digo: não é falar por alguém, é falar com alguém, abrindo caminhos e fortalecendo a mudança que você acredita.
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